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28 de março de 2005

Legião Estrangeira Francesa Contra os Árabes

Marcelo Volcato

O século XX viu inúmeros mitos perpetuados em soldadinhos de plástico. Um dos mais freqüentes e charmosos foi sem dúvida o da Legião Estrangeira Francesa. Criada em 10 de Março de 1831, a Legião Estrangeira seguia uma antiga (século XII) tradição francesa de empregar mercenários em batalha. Presente em inúmeros conflitos, "La Legion" esteve nas mais importantes guerras do século XX, I e II Guerras Mundiais e Guerra do Vietnã. Naturalmente, ao pensarmos na Legião, lembramos dos Tuareg, um bando de árabes selvagens... Inimigos mortais dela. Ou será que não era bem assim? Lembrem-se que o mito se misturou à realidade em filmes imortais como Beau Geste, e inúmeros outros. 

Não surpreende, portanto, com tanta fama, que mais de 20 fabricantes tenham retratado esses valorosos soldados... A surpresa está na enorme confusão de uniformes escolhidos por eles. 

Vamos aos principais: 

Armies in Plastic

Este é um set recente, do ano 2000. Retrata a Legião em seu clássico uniforme da virada do século XX. Para enfrentá-la, como no filme Beau Geste, árabes Tuareg! Contudo, os Tuareg não são nem nunca foram árabes! Pode parecer surpreendente mas, de fato, eram inimigos mortais dos árabes! Muito mais mortais do que a Legião Estrangeira Francesa que NUNCA lutou contra os Tuareg! Na região do Saara, a Legião ocupava quartéis no norte da Argélia e no Marrocos. Locais esses, longe da área de atuação dos Tuareg, que viviam no maciço de Ahaggar e nos oásis de Tuat, no sul da Argélia. A zona dos Tuareg foi conquistada por cameleiros Chaamba (árabes), atiradores senegaleses (negros) e argelinos (árabes), comandados por oficiais franceses. Não por legionários, que eram em sua esmagadora maioria europeus que não se adaptavam muito bem às condições extremas do Ahaggar. 

Em tempo: Esse fabricante está prometendo para 2005 um maravilhoso forte para a Legião que vai custar um terço do que a concorrência cobra!

Legionários

Árabes

Fort Morocco


Britains Deetail

Lançados em 1974, essas figuras de legionários e árabes são algumas das mais belas disponíveis até hoje (atualmente fabricadas na Argentina pela DSG)! Os uniformes, todavia... Mais confusão! Os árabes são árabes mesmo, marroquinos que enfrentaram a Legião na guerra do Rif em 1925 (alguém viu o filme "Legionário", com Jean-Claude Van Dame?). O problema é que a Legião usa uniformes típicos da campanha do México, usados na batalha de Camerone, em 1863! Numa sacada inteligente, a DSG lançou essas figuras com a pintura dos uniformes dessa campanha.

Legionários

Árabes:





Charbens

Quase acertou nas roupas... Legionários em uniforme da virada do século XX, mas os árabes são beduínos, que não enfrentavam a Legião naqueles dias, pelo contrário, serviam aos franceses em tropas coloniais!

Legionários

Árabes

Cherilea

Um lindo, e pequeno set. Os árabes são marroquinos e beduínos (um de cada) de 1925. Os legionários usam uniformes de 1880...

Árabes acima e Legionários abaixo

Árabes

Conte

Esse fabricante retratou o Filme Beau Geste como mencionei em outro artigo. No filme, assim como no livro que o inspirou, os legionários lutam contra Tuareg... Igualzinho à Sétima Cavalaria que também nunca enfrentou os Apaches, a lenda é mais forte que a realidade nesse caso.

Legionários:



Árabes:



Crescent

Esse é legal! Pena que não existam recasts... Legionários e árabes da década de 1830, quando a Legião foi criada e a França invadiu, e conquistou, o litoral da Argélia.

Legionários:


Árabes:




Marx

Baseados numa série de TV dos anos 50, Captain Gallant (não sei se passou no Brasil), essas figuras seguem o figurino utilizado na TV e ninguém parece muito autêntico, nem os legionários, nem os árabes... 

Detalhe curioso: Como os atores que faziam a série usavam roupas brancas, que na TV P&B ficavam prateadas, a Marx, atendendo a inúmeros pedidos, lançou essas figuras de legionários também na cor prata! Hoje esses são muito mais raros que os azuis claros...



Fort Gallant:



Starlux

Um fabricante francês deveria saber fazer legionários estrangeiros FRANCESES, certo? Bem... Quando criou suas figuras, nos anos 50, essa fábrica decidiu fazê-los com os uniformes adotados por eles naquele momento, para lutar na Guerra do Vietnã (que para a França foi antes da mesma guerra lutada pelos EUA). Normal, não é mesmo? Só que como a França perdia aquela guerra para os Vietcongs, nada de fazer Vietcongs para as crianças francesas. Em seu lugar a Starlux produziu árabes marroquinos (1925) e membros da Legião Árabe da Síria, que lutaram contra a França, e os legionários, nos anos 30! Vai entender?

Legionários anos 30:



Árabes marroquinos ( 1925 )

Membros da Legião Árabe da Síria

Timpo

Esse supertradicional fabricante fez dois sets de legionários e árabes. O primeiro solid cast e o segundo swoppet. Nos dois, os legionários e árabes são da Guerra do Rif em 1925, no Marrocos. Um raro caso de acerto nesse confuso mundo da Legião Estrangeira Francesa em plástico...

Legionários solid cast

Swoppets:




Árabes solid cast

12 de dezembro de 2004

Guerra Sino-Indiana da Charbens e Cherilea

Marcelo Volcato

Hoje, passados mais de 40 anos, a simples menção da Guerra Sino-Indiana pode levantar dúvidas. Na época, em plena guerra fria, com o mundo próximo de um holocausto nuclear, ela foi notícia em toda parte. Primeira página é claro! Mas o que diabos foi a Guerra Sino-Indiana, e como ela interessaria aos colecionadores de soldadinhos? 

Bem, a Guerra Sino-Indiana envolveu a China e a Índia, em 1962, lutando pela remota fronteira entre os dois países (conhecida como Linha McMahon, em homenagem ao oficial inglês que as demarcou em 1904). Os combates começaram em outubro, mas apenas dois meses depois, com os chineses, melhor preparados, dando uma sova nos hindus, tudo tinha acabado. A China, naturalmente, com a fronteira onde ela desejava. Durante dois meses os jornais só falaram nisso, e dois fabricantes de soldadinhos (sempre a fim de faturar uns trocados), perceberam uma oportunidade para incrementar as vendas. Esses dois fabricantes eram ingleses. A Índia tendo sido uma colônia inglesa até o fim dos anos 40, é natural que a imprensa da Inglaterra desse uma ampla cobertura aos combates. Charbens e Cherilea, duas fábricas concorrentes especializadas em soldadinhos baratos, decidiram lançar suas versões da Guerra Sino-Indiana. A Charbens foi fundada nos anos 50, pelos irmãos Charlie e Ben Reid, o nome da empresa, tirado dos nomes de ambos. 
Com a idéia de oferecer soldadinhos para crianças pobres, com poucas chances de comprar produtos de Herald ou Britains, a Charbens acertou no gosto popular com figuras mal esculpidas, mas que custavam um quinto do preço dos concorrentes! A história da Cherilea é parecida, mas diferente, foi do sobrenome dos sócios que se criou o nome da fábrica. Wilf Cherington e Jim Leaver fabricavam figuras de metal desde o fim dos anos 40. No início dos anos 60, com a necessidade de passar do chumbo para o plástico como matéria-prima, os sócios então tiveram uma idéia! Transformar as centenas de moldes de figuras de metal que eles tinham, em moldes de figuras de plástico. E foi isso o que eles fizeram. Com a economia de investimento em maquinário, eles puderam oferecer seus soldadinhos por uma fração do preço das outras empresas da época. Por incrível que pareça, ambas, Charbens e Cherilea, tiveram a mesma idéia ao mesmo tempo (ou não seria um caso de espionagem industrial na terra de James Bond?). Saquinhos plásticos da Guerra Sino-Indiana para o natal de 1962. 

Charbens

A versão da Charbens era um pouco mais completa, vinha com uns acessórios de campo de batalha, que incluíam ruínas e pedaços de arame farpado, totalmente inadequados para essa guerra travada em montanhas e trilhas cobertas de neve. 

Hindus

Chineses

Campo de Batalha

Cherilea

A da Cherilea, contudo (suprema capacidade técnica), apresentava os combatentes com armas modernas, e não as da II Guerra Mundial, como os da Charbens. Ambos venderam bem no natal inglês, para produtos requentados. Os "chineses" da Charbens, por exemplo, não passavam dos japoneses da II Guerra, que a mesma fábrica vendia há anos, numa nova cor de plástico (trocaram o amarelo pelo verde). 

Hindus

Chineses

Em 1963 as figuras foram descontinuadas, exceto os hindus da Cherilea, que com seus fuzis de assalto modernos, renasceram anos mais tarde no famoso set das tropas da ONU, no final dos anos 60... É claro que as tais tropas da ONU, não passavam de uma desculpa para reaproveitar soldadinhos de várias séries em um novo lançamento. O fato de que tropas da ONU separavam israelenses e árabes desde 1967 (e eram notícias diariamente), deve ter ajudado na "criação" desse novo brinquedo. 

Numa outra oportunidade, seguindo o exemplo da Cherilea, voltaremos às figuras das tropas da ONU, que mereceram três versões em sua não tão longa e pouco gloriosa história.