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14 de abril de 2005

William Walker e a Arte de Criar um Playset

Marcelo Volcato

Os playsets são as obras-primas do mundo dos soldadinhos. Em uma só caixa (às vezes em duas), o proprietário de um playset encontra tudo o que precisa para se divertir: soldadinhos, cenário e acessórios! O mais clássico de todos é sem dúvida o Forte Apache, mas apenas a fábrica americana Marx Toys lançou mais de 200 playsets diferentes, e ainda tem 6 deles em produção, mais de meio século depois de lançar seu primeiro (uma versão do Álamo). Atualmente, existem 7 fabricantes que fazem e lançam seus playsets anualmente: Marx, CTS, Conte, TSC, Barzso, BMC e Gulliver (Sim! A Gulliver ainda lança o Forte Apache!). 

Com dezenas de fabricantes atuais relançando linhas antigas e produzindo coisas novas constantemente, apenas a imaginação nos impede de criar o playset dos nossos sonhos. Tenho quatro desses aqui em casa. Levei anos montando cada um deles. 

O primeiro chamo de "O Oásis de Tamanrasset". Reúne a legião estrangeira, atiradores senegaleses (tropa colonial francesa), árabes e tuareg. Têm também um oásis, com um forte, casas, tendas árabes e até mercadores do deserto!

Uma visão geral do playset "O Oásis de Tamanrasset"

O segundo é em homenagem aos filmes/livros "O Homem que Queria ser Rei" e "O Rei dos Khyber Rifles". É situado no Afeganistão século XIX e têm ingleses, afegãos, tropas hindus (cavalaria e infantaria) e até um sargento gurkha, além de montanhas e uma cidadela afegã, claro. 

O terceiro é dedicado a mais sangrenta batalha da II Guerra Mundial, o batalha de Stalingrado. Reúne tropas alemãs, seus aliados romenos e os seus inimigos russos, muitos russos. Ruínas, barricadas, tanques e canhões completam o cenário. 

O quarto playset, bem esse é o playset do William Walker... O que William Walker tem a ver com isso? Nada, ou quase nada. William Walker nasceu em 1824 muito antes da invenção do plástico e dos playsets. Sua vida foi tão interessante, contudo, que ele merece um playset. Vamos aos fatos: Nascido em Nashville no Tennessee, William Walker era baixinho, de aparência frágil e um homem de enorme cultura. Aos vinte anos já era médico, advogado e jornalista. Foi editor de vários jornais e um ardoroso combatente da escravidão e corrupção.

William Walker

Tudo isso mudou quando Walker, inspirado pelas vidas dos grandes gênios militares que ele conhecia dos livros, tornou-se um filibusteiro. E ele foi o maior dos filibusteiros. Um filibusteiro é uma pessoa que reúne um exército particular, ataca um país e o conquista! O que parece impensável nos dias de hoje não era raro em meados do século XIX. Entre 1852 e 1860 Walker comandou seis invasões a diversos países, proclamou a independência de um estado mexicano, conquistou a Nicarágua, foi eleito presidente da república desse país, lutou uma guerra contra quatro vizinhos centro-americanos (Honduras, Costa Rica, Guatemala e El Salvador), foi derrotado em batalha, mas ganhou a guerra graças a uma intervenção do vibrião colérico, que dizimou seus inimigos. Walker foi duas vezes capturado por tropas inglesas, e na segunda traído, tendo sido entregue a seus inimigos hondurenhos que o fuzilaram. Esse homem foi o americano mais famoso do século XIX no período anterior a Guerra Civil Americana, músicas foram compostas em sua homenagem (até mesmo uma ópera em 3 atos!), os jornais o mencionavam com uma freqüência assombrosa, e a sua passagem levava multidões para ouvi-lo nas estações de trem. Ele deixou um livro (o muito bem escrito "My War In Nicaragua") que foi best-seller na época e ainda hoje é reeditado, uns 150 anos após seu lançamento. Walker, auto-proclamado coronel e depois general, comandou seus soldados (denominados por ele de: "The immortals"; e conhecidos entre os nicaragüenses como "La Falange Americana") em muitas batalhas, ganhando algumas, perdendo outras. Viveu intensamente seu sonho de conquista. Apelidado pelos índios nicaraguenses de "Gray-Eyed Man of Destiny" (O Homem de Olhos Cinzentos do Destino), William Walker nunca será esquecido. Uma singela placa marca seu lugar de nascimento em Nashville, onde ele ainda é um herói popular, cujo nascimento é celebrado anualmente.

A placa que marca lugar de nascimento de William Walker em Nashville...

...e o mapa que marca os territórios invadidos pelo mesmo

Como fazer um playset de William Walker? Fácil! Segue uma lista de componentes básicos para fazer um bom playset:

William Walker ( Replicants CSA Cavalry )

Immortals ( Conte Alamo Texans, Timpo CSA Infantry )

Nicaragüenses ( Barzso Mexican Militia ):



Hondurenhos ( Timpo Civil War USA Infantry, Replicants USA Cavalry, BMC San Juan Hill Americans ):



Costa-Riquenhos ( Marx Civil War USA & CSA Infantries ):



Cenário ( Barzso Mexican Village ):



Acessórios ( CTS Cannon, BMC Barricades, BMC Alamo Accessories )

Estas peças estão disponíveis em muitos vendedores internacionais. 

Como a única limitação (além do custo) é a sua imaginação, uma consulta a esses sites pode realizar o velho sonho de comprar AQUELE brinquedo que você sempre quis! 

Boa sorte! 

31 de outubro de 2004

Robin Hood

Marcelo Volcato

Robin Hood foi certamente o soldadinho com maior número de versões na história dos soldadinhos de plástico. É mais fácil dizer quais fabricantes não fizeram figuras de Robin Hood e dos seus "merry men" ("rapazes alegres", sem malícia, por favor!), do que mencionar aqueles que os fizeram. Ainda assim me arrisco uma breve listagem: Marx (2 versões), MPC, Tim-Mee, Payton, PPC, Ken Toys, Cherilea, Charbens, Britains (2 versões), Starlux, Dulcop, Elastolin, Airfix (em escala 1/72), etc... A própria Conte Collectibles, líder mundial da fabricação de soldadinhos na atualidade, está trabalhando numa versão (em metal e plástico) para lançamento em 2005. A foto prova que as figuras da Conte serão espetaculares! 

Figura do próprio Robin da Conte,
prevista para ser lançada em 2005

Não é de surpreender, portanto, que um fabricante tão importante como a Britains tenha se arriscado a fazer duas séries diferentes homenageando o mais lendário dos ladrões medievais. A primeira versão, ainda dos anos 60, da linha Herald, trazia apenas cinco figuras: Robin, sua namorada Marian, Frei Tuck, João Pequeno, e uma bela pose do Xerife de Nottingham a cavalo. 

Primeira coleção da linha Herald

Essas figuras fizeram muito sucesso por alguns anos, mas quando a Britains lançou a linha Deetail, com bases metálicas (mais sobre essas bases em um próximo artigo), foram aposentadas como o resto das figuras Herald. Assim se passaram alguns anos, até que por volta de 1978, Peter Cole, escultor das figuras Britains Deetail, recebeu a encomenda de preparar um novo conjunto de soldadinhos de Robin Hood. A idéia era tentar aumentar as vendas, em queda no final dos anos 70, lançando alguma coisa que já tivesse provado vender bem no passado. Peter não se intimidou com possíveis comparações com o antigo e famoso antecessor. Ele não apenas criou as figuras de Robin e do seu bando, sentindo que o Xerife, injustamente, nunca recebia soldadinhos para lutar ao seu lado, ele os fez também. Seu projeto final incluía cinco figuras do bando: Robin, Marian, Frei Tuck, João Pequeno e Will Scarlett. Além disso, 10 figuras para o Xerife: O Xerife, Sir Guy of Guisborne, mais oito soldados. O projeto não saiu do papel, considerado muito caro, ficou 13 longos anos em alguma gaveta... 

Em 1991, contudo, Kevin Costner, provavelmente o astro mais popular de Hollywood nos anos 90, lança uma nova versão da imortal história de Robin Hood. 

Kevin Costner em sua nova versão
 da imortal história de Robin Hood

Com o sucesso do filme, e recuperada da crise de tantos anos atrás, a Britains decidiu arriscar, e pela primeira vez em 10 anos, novas figuras eram lançadas na série Deetail: Robin Hood e seu bando! Mas, apesar de manter todos os personagens principais no lançamento em 1992, a Britains substitui os homens do Xerife por frustrantes "turcos" (ou storm knights), figuras em nada relacionadas à história, mas facilmente disponíveis desde 1971. Assim, a série era composta por: Robin, Marian, Frei Tuck, João Pequeno, Will Scarlett, o Xerife e Sir Guy. Lançando essas figuras numa coleção de "blister packs" baratos, o sucesso foi enorme! Enorme também foi à frustração de Peter Cole. Afinal, sua ideia original era dar ao Xerife uns capangas para combater Robin Hood, mas isso teria que esperar... 

As novas figuras lançadas na série Deetail:
Robin Hood e seu bando...

...e os frustrantes "turcos" ( ou storm knights ) que
 substituíram os homens do Xerife de Nottingham

As figuras da Britains de Robin Hood,
Marian e Frei Tuck




O ano é 1999. Peter sai da Britains e junto com amigos funda a Replicants. Uma fábrica de soldadinhos com a idéia de criar figuras em resina plástica (mais caras, mas mais fáceis de fabricar), para completar linhas disponíveis de outros fabricantes. Depois de vários sets de sucesso, em 2002, Peter vinga-se de sua frustração de 24 anos! Lança o primeiro set, logo seguido pelo segundo, meses mais tarde, de soldados do Xerife. As esculturas espetaculares de Peter incluíam, entre outros: um carrasco com machado e pisando no cepo (esperando uma vítima inocente?), e um soldado com uma tocha (queimando uma casa de alguém que não pagou os impostos?). 

Peter levou 24 anos para conseguir dar aos colecionadores a primeira série de "Sherriff of Nottingham's men" da história dos soldadinhos. Naturalmente tratou-se de um enorme sucesso! Qual colecionador dedicado poderia deixar de tê-las em sua coleção? Perseverança, além do talento de Peter, fizeram toda a diferença. 

Primeira série de "Sherriff of Nottingham's men" da história dos soldadinhos da Replicants de Peter Cole: