15 de novembro de 2004

Troianos - Os mais raros dos soldadinhos de plástico

Marcelo Volcato

Uma das coisas mais interessantes de colecionar soldadinhos de plástico, é a possibilidade de possuir (e brincar com) brinquedos de todas as regiões do planeta, e todos os períodos da História da humanidade. Assim, sua coleção irá levá-lo um dia aos campos de batalha da Idade Média, e no seguinte, ao "veldt" sul-africano, onde seus zulus enfrentarão os boeres. É difícil imaginar uma época ou local que não tenham sido retratados em figuras de plástico. A triste exceção é o Brasil, com os nossos fabricantes, míopes, preferindo fabricar cowboys no lugar de bandeirantes, ou sioux ao invés de tupiniquins... Um dia talvez eles acordem. 

Com milhares de linhas, produzidas por mais de 80 fabricantes do mundo inteiro, é bem provável que você facilmente encontre figuras para brincar daquele período histórico que mais lhe agrada, não é mesmo? Bem, sim. Exceto se você curtir a Guerra de Tróia, e estiver procurando por troianos. Não que eles não existam, eles existem. O problema é que em mais de 40 anos, desde os anos 60, apenas três fabricantes se ocuparam desse conflito, produzindo três sets clássicos e de enorme sucesso e raridade. Vamos aos três: 

Troianos da Britains Herald

A fábrica Herald, uma das pioneiras na Inglaterra da fabricação de soldadinhos de plástico, foi comprada pela tradicional fábrica de soldadinhos de chumbo Britains, ainda em meados dos anos 60. O motivo era simples. O plástico era mais barato e seguro do que o metal, e a Britains (fundada em 1893 por William Britains) estava tentando, sem sucesso, substituir sua matéria prima. Em 1966 ou 1967 (as fontes divergem) a Britains lançou seu primeiro conjunto de soldadinhos, após a aquisição da Herald: Os troianos. As figuras foram feitas sob a supervisão do legendário Roy Selwyn-Smith, e retratavam os principais guerreiros dos dois lados do conflito: Os troianos eram Heitor e Páris (com arco e tudo), e os gregos contavam com Agamemnom (a cavalo), Ulisses, Aquiles e Ajax. Disponíveis por apenas quatro anos, e apesar do enorme sucesso na época, essas figuras são raras hoje em dia, e muitos colecionadores sonham com elas. 

Rei grego Agamemnom

Heitor, Páris, Ajax, Aquiles, e Ulisses

Troianos da Atlantic

Em 1972 a Atlantic (empresa italiana, que criou as esculturas das figuras do velho oeste atuais da Gulliver), lançou a sua versão dos troianos. Ao contrário da versão Britains, que tinha esculturas "genéricas", a Atlantic se preocupou em fazer dos seus troianos, uma representação fiel do que teve ter sido um guerreiro do período. Diz à lenda que o escultor visitou museus, consultou livros sobre o Império Micênico, e pesquisou por um ano antes de por mãos à obra. O resultado? Um estrondoso sucesso na Europa e nos EUA, mas isso não impediu que essas figuras tivessem um final ingrato... Em 1991, junto com os moldes de romanos, egípcios e gregos, os moldes dos troianos foram vendidos para o Iraque, isso mesmo, o Iraque, semanas antes da Guerra do Golfo. Os moldes estão desaparecidos desde então, presume-se que destruídos, e essas figuras custam muito, mas muito caro mesmo, no mercado de colecionadores internacionais. 


Troianos da Dragon

Foram precisos mais de 30 anos (e um filme com Brad Pitt), para que algum fabricante voltasse a se interessar pelos troianos. No ano de 2004, celebrando vendas absurdas com a série "Can Do", de figuras de diorama em escala 1/24, a Dragon (sim, a mesma Dragon que fabrica action figures) lançou um primeiro set de troianos, com as figuras de: Helena de Tróia (fundamental, mas ainda inédita), Agamemnom, Menelau e Páris. Um segundo set deve estar disponível para o natal, e inclui: Heitor, Ajax, Aquiles, e um guerreiro troiano. Feitas em número limitado, e com os moldes destruídos após o lançamento, essas figuras Dragon tem tudo para se tornar raras em pouquíssimo tempo! 

O primeiro conjunto da Dragon

O segundo conjunto da Dragon, que deverá
estar disponível para o natal de 2004

Cavalo de Tróia

Para os historiadores ele nem existiu, explicam-no como a lembrança, distorcida pelo tempo, do primeiro uso pelos gregos de uma torre de assédio... Mas a verdade, e aqui gostamos da verdade, é que a brincadeira ficaria incompleta sem um cavalo de Tróia! A primeira versão foi a Atlantic quem lançou, em 1970, mas em escala 1/72, muito pequeno para ter graça, ainda que perfeito para dioramas e wargames. Recentemente tivemos uma agradável surpresa. Uma fábrica brasileira, a Gemini, lançou um cavalo de Tróia em escala 1/32, gigantesco e a companhia ideal para conquistar cidades muradas invencíveis na costa da Anatólia... Esse brinquedo maravilhoso é vendido com figuras semelhantes a Lego, totalmente frustrantes para quem gosta de soldadinhos de plástico, mas como prova a foto, o cavalo de Tróia da Gemini não faz feio ao lado de gregos "Made in Greece", dos anos 70, da Fábrica Athena. Agora é só esperar Páris seqüestrar Helena, e brincar tudo de novo. 

A primeira versão que a Atlantic lançou em 1970

 Cavalo de Tróia da Gemini, que não faz feio ao lado de gregos
 "Made in Greece", dos anos 70, da Fábrica Athena

7 de novembro de 2004

Forte Apache - A verdade está aqui!

Marcelo Volcato

Forte Apache. O mais tradicional dos brinquedos, quando pensamos em soldadinhos de plástico. Desde os primeiros produzidos, no final dos anos 40, até os dias de hoje, são raríssimos os fabricantes de soldadinhos que não os fabricaram. De madeira, metal, papelão, ou plástico, as paliçadas de madeira são parte integrante de todo Forte Apache que se preze. Inconfundível, não é mesmo? Alguns, tentando serem originais, lhe deram um novo nome. Dependendo da criatividade de cada um, valia Forte Comanche, Forte Rin-Tin-Tin, Forte Sioux, Forte Arizona, Forte Grant, Forte Bowie, Forte isso, Forte aquilo, etc, etc, etc... Todos, na verdade, o mesmíssimo brinquedo. 

Forte Apache da Marx:



Em meados dos anos 50, mais de 80% dos meninos norte-americanos tinham um Forte ou outro entre seus brinquedos. Milhões de Fortes valentemente defendidos pela Sétima Cavalaria contra os selvagens Apaches. Nos anos 60 a febre chegou ao Brasil. Quase todos os meninos que conheci naquela época, tinham no mínimo um Forte, isso sem contar, aqueles que como eu, tiveram diversos Fortes (um no Natal, outro no aniversário, durante anos a fio...). Com todo esse sucesso, imagina-se que não existam dúvidas, ou inverdades à respeito do Forte Apache, certo? Errado. 

Por incrível que pareça, os erros e as inverdades são inúmeros. Vamos agora restabelecer a verdade histórica do Forte Apache. O da Gulliver? Não, aquele real, o do velho oeste! Faço isso, não para desafiar ou polemizar com ninguém. Mas colecionar brinquedos não deve servir de desculpa para reinventar a história. Alguns colecionadores, que não perderam seu tempo, como eu, estudando a fundo a história do velho oeste, poderão aprender muito. É esse o objetivo dessa coluna: Contar histórias que a maioria dos colecionadores desconhece, mas que valeria a pena conhecer. 

Criado pelo governo americano em 1870, no Arizona, para controlar os apaches na recém criada reserva White Mountain, o "Fort Apache" serviu de base para a oitava cavalaria, e mais tarde a décima, até 1922, ano em que os EUA desistiram de unidades de cavalaria montadas em cavalos. É isso mesmo que o amigo leu, a sétima cavalaria, do famoso coronel (e não general) Custer, não estava nem perto do Arizona nessa época. O Forte Apache foi um quartel de história pouco movimentada. Por exemplo: Ataque dos apaches? Apenas um nos longos 52 anos em que foi ocupado... No dia 1º de setembro 1881, um grupo de apaches atacou o forte incendiando os prédios mais afastados. Um tenente e um cavalo ficaram feridos. Evidentemente não passou de uma escaramuça sem importância, os apaches só queriam ocupar a cavalaria enquanto suas mulheres e crianças fugiam da reserva. Se ao menos o Forte Apache tivesse uma paliçada de madeira... Ele não tinha, lamentavelmente. O forte era simplesmente um agrupamento de prédios baixos, ao redor de uma praça onde a cavalaria marchava em paradas. Só isso! Nada de portão com nome em cima, paliçada de madeira, ou torres nos cantos! Esse modelo de forte ( paliçada de madeira, torres e portão ) existiu nos Estados Unidos, contudo nunca no Arizona, muito menos no final do século XIX, quando os Apaches causavam problemas para a cavalaria. O Forte William Henry da Guerra dos índios e dos franceses (por aqui chamada: Guerra dos sete anos), mostrado no filme "O Último dos Moicanos", era desse tipo. 

O curral no Forte Apache, a coisa mais parecida com uma paliçada

Ruínas dos alojamentos

Uma visão moderna do Forte Apache, ontem como hoje, nada de paliçadas

O prédio mais alto do Forte Apache, o alojamento do capitão

Mas, nas brincadeiras de criança, o grande chefe apache Gerônimo... Espere aí. Gerônimo nunca foi chefe! Sua posição na tribo era a de "medicine-man", o curandeiro, ou pajé de uma tribo. É isso mesmo. Cuidado quando vocês forem ao Arizona, pelo menos lá, eles conhecem a história de Gerônimo. Goyahkla ( seu nome verdadeiro - Gerônimo foi inventado pelos brancos que achavam o original impronunciável ), cuja tradução significa: "Aquele que boceja", não era chefe coisa nenhuma! Ele teve uma infância e adolescência pouco notável, sua tribo, os apaches Bedonkohe, constituíam uma das menores e menos expressivas tribos de toda a nação apache. Já adulto, após perder esposa e filhos para um grupo de mexicanos que os matou para roubar seus cavalos, Gerônimo procurou pelo chefe dos Chiricahua (essa sim uma tribo poderosa), o famoso Cochise, e juntou-se a eles. Eventualmente, após a morte de Cochise, Gerônimo comandaria bandos de apaches renegados, fugitivos das reservas por muitos anos, mas chefe de uma tribo apache, isso ele nunca foi. E antes que eu me esqueça: Apache não é o nome de uma tribo, como ficou claro no texto. Apache era o nome da nação, diversas tribos compunham, e ainda compõe, a nação apache. 

Mais alguma coisa? Sim! Lamentavelmente ainda preciso esclarecer mais três coisas:

1 - Confederados? Desde os tempos da Casablanca, a Gulliver insiste em chamar a 7ª Cavalaria de "Confederados". Isso está errado! Confederados foram os americanos do sul, que enfrentaram os do norte na Guerra de Secessão (1861-1865), ou Guerra Civil Americana. A 7ª cavalaria era ianque, ou seja, do norte!

2 - Apaches ou Sioux no Forte Apache? Infelizmente de todas as figuras de índios lançadas por Casablanca e Gulliver, nem uma única se parece com um apache. Tratam-se todos de índios da planície, como os Sioux, que foram os inimigos de Custer na batalha de Little Big Horn. O problema é que nunca os Sioux estiveram sequer no Arizona, quanto mais no Forte Apache.

3 - Cavalaria montada ou a pé? Pode parecer estranho, mas exceto quando atacavam aldeias com mulheres e crianças (o que eles fizeram às vezes), os soldados da Cavalaria lutavam a pé! O motivo? Ao contrário da lenda, a Cavalaria não tinha carabinas Winchester de repetição, mas carabinas Springfield de um único tiro. Ora, recarregar essa arma em um cavalo em movimento seria impossível! Em 99% das batalhas que travou contra os índios, a Cavalaria desmontou, e um em cada quatro soldados ficou segurando as rédeas dos cavalos (para que não fugissem com os tiros), enquanto os outros três lutavam. Incrível, mas verdadeiro.

A verdadeira aparência dos Apaches

Bem, agora sim, o amigo pode dizer que sabe tudo sobre os Fortes Apaches. Os de brinquedo, e o de verdade!

31 de outubro de 2004

Robin Hood

Marcelo Volcato

Robin Hood foi certamente o soldadinho com maior número de versões na história dos soldadinhos de plástico. É mais fácil dizer quais fabricantes não fizeram figuras de Robin Hood e dos seus "merry men" ("rapazes alegres", sem malícia, por favor!), do que mencionar aqueles que os fizeram. Ainda assim me arrisco uma breve listagem: Marx (2 versões), MPC, Tim-Mee, Payton, PPC, Ken Toys, Cherilea, Charbens, Britains (2 versões), Starlux, Dulcop, Elastolin, Airfix (em escala 1/72), etc... A própria Conte Collectibles, líder mundial da fabricação de soldadinhos na atualidade, está trabalhando numa versão (em metal e plástico) para lançamento em 2005. A foto prova que as figuras da Conte serão espetaculares! 

Figura do próprio Robin da Conte,
prevista para ser lançada em 2005

Não é de surpreender, portanto, que um fabricante tão importante como a Britains tenha se arriscado a fazer duas séries diferentes homenageando o mais lendário dos ladrões medievais. A primeira versão, ainda dos anos 60, da linha Herald, trazia apenas cinco figuras: Robin, sua namorada Marian, Frei Tuck, João Pequeno, e uma bela pose do Xerife de Nottingham a cavalo. 

Primeira coleção da linha Herald

Essas figuras fizeram muito sucesso por alguns anos, mas quando a Britains lançou a linha Deetail, com bases metálicas (mais sobre essas bases em um próximo artigo), foram aposentadas como o resto das figuras Herald. Assim se passaram alguns anos, até que por volta de 1978, Peter Cole, escultor das figuras Britains Deetail, recebeu a encomenda de preparar um novo conjunto de soldadinhos de Robin Hood. A idéia era tentar aumentar as vendas, em queda no final dos anos 70, lançando alguma coisa que já tivesse provado vender bem no passado. Peter não se intimidou com possíveis comparações com o antigo e famoso antecessor. Ele não apenas criou as figuras de Robin e do seu bando, sentindo que o Xerife, injustamente, nunca recebia soldadinhos para lutar ao seu lado, ele os fez também. Seu projeto final incluía cinco figuras do bando: Robin, Marian, Frei Tuck, João Pequeno e Will Scarlett. Além disso, 10 figuras para o Xerife: O Xerife, Sir Guy of Guisborne, mais oito soldados. O projeto não saiu do papel, considerado muito caro, ficou 13 longos anos em alguma gaveta... 

Em 1991, contudo, Kevin Costner, provavelmente o astro mais popular de Hollywood nos anos 90, lança uma nova versão da imortal história de Robin Hood. 

Kevin Costner em sua nova versão
 da imortal história de Robin Hood

Com o sucesso do filme, e recuperada da crise de tantos anos atrás, a Britains decidiu arriscar, e pela primeira vez em 10 anos, novas figuras eram lançadas na série Deetail: Robin Hood e seu bando! Mas, apesar de manter todos os personagens principais no lançamento em 1992, a Britains substitui os homens do Xerife por frustrantes "turcos" (ou storm knights), figuras em nada relacionadas à história, mas facilmente disponíveis desde 1971. Assim, a série era composta por: Robin, Marian, Frei Tuck, João Pequeno, Will Scarlett, o Xerife e Sir Guy. Lançando essas figuras numa coleção de "blister packs" baratos, o sucesso foi enorme! Enorme também foi à frustração de Peter Cole. Afinal, sua ideia original era dar ao Xerife uns capangas para combater Robin Hood, mas isso teria que esperar... 

As novas figuras lançadas na série Deetail:
Robin Hood e seu bando...

...e os frustrantes "turcos" ( ou storm knights ) que
 substituíram os homens do Xerife de Nottingham

As figuras da Britains de Robin Hood,
Marian e Frei Tuck




O ano é 1999. Peter sai da Britains e junto com amigos funda a Replicants. Uma fábrica de soldadinhos com a idéia de criar figuras em resina plástica (mais caras, mas mais fáceis de fabricar), para completar linhas disponíveis de outros fabricantes. Depois de vários sets de sucesso, em 2002, Peter vinga-se de sua frustração de 24 anos! Lança o primeiro set, logo seguido pelo segundo, meses mais tarde, de soldados do Xerife. As esculturas espetaculares de Peter incluíam, entre outros: um carrasco com machado e pisando no cepo (esperando uma vítima inocente?), e um soldado com uma tocha (queimando uma casa de alguém que não pagou os impostos?). 

Peter levou 24 anos para conseguir dar aos colecionadores a primeira série de "Sherriff of Nottingham's men" da história dos soldadinhos. Naturalmente tratou-se de um enorme sucesso! Qual colecionador dedicado poderia deixar de tê-las em sua coleção? Perseverança, além do talento de Peter, fizeram toda a diferença. 

Primeira série de "Sherriff of Nottingham's men" da história dos soldadinhos da Replicants de Peter Cole:


24 de outubro de 2004

Louie´s Beauties - Marx Toys

Marcelo Volcato


Louis Marx & Co. foi a maior fábrica de brinquedos dos Estados Unidos por 5 décadas. Fundada por Louis Marx em 1919, a Marx fabricava desde soldadinhos até bicicletas. Passando por bonecas, jogos, quebra-cabeças, etc... Brinquedos de madeira, metal e plástico. Nenhum tipo de brinquedo deixou de ser fabricado por eles. Diz a lenda que o primeiro Autorama, o primeiro Forte Apache e o primeiro Postinho de Gasolina foram todos criados por essa empresa gigantesca. As primeiras "Action Figures" também apareceram nas linhas de montagem da Marx, em plenos anos 50!

Louie (apelido de Louis Marx) dirigiu a fábrica com criatividade e inovações até sua morte em 1971. Em 1978, passando por dificuldades, a Marx fechou as portas. Nem tudo estava perdido, contudo, e nos anos 90, adquirida por um empresário que brincou com brinquedos Marx durante a infância, e deu brinquedos Marx para os seus filhos brincar, ela foi reaberta. Ainda hoje seus brinquedos, com uma nítida aparência "vintage", continuam fazendo enorme sucesso com crianças cujos avós não tinham nem nascido quando Louis Marx a fundou! Uma autêntica história de sucesso que atravessou quatro gerações de crianças.

Os anos 50 foram o apogeu de Louie. Seus brinquedos vendiam como nunca e em 1955 ele apareceu na capa da influente revista "Time", fazendo sombra para ninguém mais, ninguém menos que o próprio Papai Noel! Foi no início dos anos 50 que esse pioneiro começou a fabricar soldadinhos.

A capa da revista Times de 1955 com Louis Marx como Papai Noel

Sem muita experiência, seu primeiro playset (O Álamo) trazia texanos lutando contra índios! Isso porque ninguém ainda tinha criado soldadinhos de mexicanos... Claro, foi Louie quem fez o primeiro Álamo com mexicanos, um ano mais tarde.

Contam aqueles íntimos com a história dessa maravilhosa empresa, que um belo dia nos anos 60, Louie percebeu que ele tinha um problema nas mãos. Seus representantes comerciais visitavam milhares de lojas pelos Estados Unidos inteiros, e recebiam, para distribuir como brinde aos compradores, soldadinhos de 60mm. Robin Hood, Rei Artur, Guerra Civil Americana, Egípcios, Romanos, etc... Louie mandava de tudo como brinde, mas... Os fregueses nunca os recebiam! Os brinquedos eram tão bonitos que os representantes os davam como presentes para seus próprios filhos! O que fazer?

Um outro empresário menos criativo e inteligente, poderia ter demitido um ou dois representantes como exemplo, ameaçado os funcionários, etc... Nada disso estava de acordo com o caráter de Louie. A solução dele? As "Louie´s Beauties"! Em bom Português, as "Gostosas do Louie". Um conjunto de oito figuras em 60mm de mulheres em diferentes poses, mas todas seminuas! Qual o pai, em plenos anos 60, que daria um brinquedo de uma empregadinha francesa (de bunda de fora) mandando um beijinho? Ou de uma dançarina de Hula-Hula com flores mal cobrindo os seios? Ou ainda uma mulher retirando a parte de cima do biquíni? Nenhum, óbvio! E assim as "Louie Beauties" tornaram-se as mais famosas figuras NUNCA lançadas pela Marx. Afinal, só serviram de brinde...

Atualmente uma coleção completa original em excelente estado não sai por menos de uns US$ 500.00! Ainda bem que existem "recasts", pois os moldes ainda estão por aí, funcionando a pleno vapor. Da última vez que as vi, custavam US$ 40.00, por um set de oito. Alguém se habilita? 

Abaixo algumas fotos das "Louie Beauties!".


Acampamento Apache

Marcos Guazzelli

A tribo de índios apaches ganhou notoriedade em função de filmes de sucesso como Fort Apache (John Ford - 1948) e, principalmente, da série de televisão Rin Tin Tin. Embora outras tribos norte-americanas talvez tenham aspectos mais relevantes do ponto de vista da história dos Estados Unidos, os apaches são mais "famosos".

Chefes apaches notórios foram, entre outros, Cochise e Gerônimo. Os apaches foram a última tribo a se render oficialmente ao governo americano em 1886 (embora os sioux/dakota tenham enfrentado o exército pela última vez em 1890 na batalha de Wounded Knee).

O sucesso da série de brinquedos da Casablanca iniciou com o "Forte Apache" em 1964, mas logo o público consumidor precisava de novos conjuntos que pudessem ser integrados nas brincadeiras, ampliando o universo possível de aventuras. O "Acampamento Apache" veio nesta linha, foi um grande sucesso, e foi produzido por mais de 30 anos.

O nome apache veio na esteira da notoriedade da tribo e do sucesso do "Forte Apache", mas o novo brinquedo acabou por fazer confusões históricas:

O "Acampamento Apache" trazia no conjunto chefes de outras tribos, como Touro sentado e Cavalo Louco (também aproveitando a notoriedade destes personagens);

Os índios do "Acampamento Apache" utilizavam tanto roupas apaches como roupas de outras tribos;

As tendas do "Acampamento Apache" não eram do modelo efetivamente utilizado pela tribo apache;

O "Acampamento Apache" tinha um totem, característico das tribos mais do norte dos Estados Unidos.
Estes são apenas alguns exemplos de confusão histórica, mas outros podem ser identificados.

Casablanca

Lançado entre 1966 e 1967.

Como já mencionado em artigos anteriores, a Casablanca era preocupada com os detalhes do brinquedo. Todas as figuras eram numeradas para que fossem identificadas pelo nome. A relação com os números e nomes das figuras, em papel amarelo, vinha colada no fundo das caixas.

As figuras integrantes do "Acampamento Apache Casablanca" eram:

005 - Chefe índio
006 - Arqueiro índio
007 - Índio
009 - Índio Pulador
016 - Índio Falcão Negro
051 - Jerônimo
052 - Índio Grande Conselheiro
053 - Índio Touro Sentado
054 - Índio Adorador
055 - Índio Caçador
056 - Índio Atirador
057 - Índio Escudo Dourado
058 - Índio Pena Branca
059 - Índio Zorro Gris
060 - Cacique índio
061 - Índio Lanceiro
062 - Índio Cavalo Louco
100 - Sitting Bull (note-se que Sitting Bull é Touro Sentado em inglês; desta forma o famoso chefe era representado em duas figuras - 053 e 100)
101 - Feiticeiro da tribo
102 - Índio Urso Alto
103 - Índio Grande Alce
104 - Índio
105 - Índio
106 - Índio Alce Veloz
107 - Índio
108 - Índio Coiote Cinzento
109 - Índio atirando encostado na pedra
110 - Índio de montar
111 - Índio
113 - Índio Cochise
114 - Jovem Índia Raio de Sol
132 - Índio Mão Amarela
133 - Índio Flecha Certeira
134 - Índio Cavalo Bravo
135 - Índia Velha
136 - Índio Bruxo
137 - Índio Grande Trovão
138 - Índio Renegado
139 - Índio Flecha Vermelha

O "Acampamento Apache da Casablanca" vinha com uma base de papel representando um terreno da planície, com um rio para as canoas. O acampamento era montado sobre esta base. A base existiu em duas versões - redonda e quadrada. Ambas podem ser vistas nas fotos abaixo, sendo que a base redonda mostrada na foto é da coleção do meu amigo Raul de Belo Horizonte.

Havia dois modelos de cabana - uma mais alta, cônica, circular, com três ponteiras, denominada cabana índia. Outra menor, com 10 ponteiras denominada cabana de chefe. Geralmente o conjunto era composto por 4 cabanas índias e 2 cabanas de chefe. Ambos os modelos de cabana aparecem na foto abaixo.

Compunha ainda o acampamento: canoas, fogueira, cercado para cavalos, totem e jangada de madeira.

De acordo com informações que obtive, a jangada de madeira era feita para aproveitar sobras de madeira da linha de produção da Casablanca.

Ao todo, o "Acampamento Apache Casablanca" vinha com 34 figuras. Todos os itens integrantes do acampamento podiam ser encontrados de forma avulsa.

Sou apaixonado pelas ilustrações das caixas dos brinquedos Casablanca e Gulliver, mas duas ilustrações não consegui ainda obter: a do "Acampamento Apache Casablanca" e a do conjunto Virgínia City. Parece que um colega nosso da Galeria dos Brinquedos irá trazer a ilustração do "Acampamento Apache" num artigo que está sendo elaborado...



"Acampamento Apache" do Wagner, grande colecionador de São Paulo

Gulliver

Em 1969 a Casablanca é destruída por um incêndio e em 1970 os filhos do fundador da Casablanca reconstroem a fábrica sob o nome de Gulliver. A Gulliver torna a lançar os brinquedos de faroeste.

Sua primeira versão do acampamento não trás o tradicional nome "Acampamento Apache", mas sim "Os Apaches".

O conjunto "Os Apaches" é produzido até 1974. Possuiu duas versões de embalagem, sendo uma com um desenho de guerreiros apaches e outra com uma foto do conjunto.

Em minha opinião este foi o conjunto mais bonito de todos os acampamentos lançados. Ele era montado sobre uma base de plástico. A base era composta de duas partes encaixáveis.

O conjunto era composto por:

03 tendas
01 canoa
01 totem
10 índios
01 cavalo

Entre as figuras de índios destacam-se 5 figuras de índios sentados (em 3 posições). Os índios sentados só existiram neste conjunto e são extremamente raros.

Em um artigo futuro, comentaremos sobre fábricas internacionais onde a Casablanca e a Gulliver buscaram modelos de figuras. Os índios sentados foram copiados da Elastolin, uma fábrica Alemã. Na Alemanha são produzidos até hoje e podem ser encontrados no site http://www.elastolin.com.

Abaixo, fotos ilustrativas contendo cópia do catálogo da Gulliver com o conjunto, e duas fotos do conjunto "Os Apaches" da coleção do colecionador Marco Antonio de São Paulo.




Em 1975 retorna a denominação "Acampamento Apache", desta vez sem base, e com 5 tendas. O conjunto é produzido neste formato até 1977, conforme ilustrações abaixo, sendo uma do catálogo e outra da minha coleção. No canto superior direito da foto do catálogo é possível ver a ilustração da caixa que embalou o "Acampamento Apache" entre 1975 e 1979.



Em 1978 o brinquedo é novamente alterado. Retorna a base, desta vez rígida. O conjunto passa a ter 4 tendas coloridas, sendo cada uma de uma cor diferente. O conjunto é produzido neste formato até 1979. Abaixo, a ilustração da página do catálogo, sendo que o "Acampamento Apache" aparece entre outros conjuntos da época.


A partir de 1980 a Gulliver muda dramaticamente a sua linha de faroeste. Saem de cena as figuras tradicionais e entram as figuras da fábrica Italiana Atlantic, sem pintura, na cor do plástico.

A linha de figuras Atlantic nunca foi trazida de forma completa pela Gulliver. Há muitas figuras Atlantic bonitas que nunca foram lançadas no Brasil, mas podem ser encontradas à venda no site E-bay Italiano.

As figuras Atlantic são produzidas pela Gulliver até hoje (no conjunto Forte Apache).

Em 1980 o "Acampamento Apache" passa a se chamar "Apaches Camp", lançado em uma caixa só com figuras, conforme ilustrações abaixo. Tendas, canoa, totem, fogueira não mais fazem parte do conjunto.



Em 1986 as figuras no formato Atlantic passam a ser de vinil, pintadas a mão. Retorna o nome "Acampamento Apache", agora com 6 tendas, conforme ilustração abaixo (que está com uma tenda a mais). O conjunto é produzido neste formato até 1990.


Na década de 90 o conjunto passa a ser vendido num cilindro de plástico que contém figuras e 1 tenda. As figuras continuam a ser pintadas a mão, no entanto a pintura é de baixa qualidade se comparada com seus antecessores.

Em 2002 a Gulliver lança a série com bonecos articulados. Aparece no site da Gulliver o conjunto "Acampamento Apache" conforme ilustração abaixo. Este conjunto trás itens dos anos 60 e 70 - canoa, árvore, totem e fogueira. No entanto, por mais que tenha tentado localizar este conjunto em lojas, nunca tive sucesso. A meu pedido, lojistas de Curitiba entraram em contato com o representante da Gulliver, que desconhecia o conjunto, o que me leva a crer que este conjunto jamais foi lançado comercialmente.


Bom, eram estas as informações que eu tinha sobre o "Acampamento Apache".

Até o próximo artigo. 

15 de agosto de 2004

Brinquedos de Faroeste - Viocema

Marcos Guazzelli

As empresas que produziram brinquedos de faroeste nos anos 60 e 70, e que se tornaram famosas por isto, foram a Casablanca e sua sucessora Gulliver.

No entanto, outros fabricantes também atuaram nesta linha de produtos como, por exemplo, Trol, Estrela, Educa, Papai Noel e Indústria de Brinquedos Comanche.

Em artigo anterior ( Fort Rin Tin Tin ), tive a oportunidade de abordar o caso da Trol. Desde que escrevi aquele artigo, tive oportunidade de adquirir de um amigo um exemplar do "Fort Sioux". Estou evoluindo nas pesquisas sobre este brinquedo, mas todas as indicações que tenho até o momento apontam para o fato de que o "Fort Sioux" é o antecessor do Fort Rin Tin Tin, ambos lançados pela Trol. Se alguém que vier a ler este artigo tiver mais informações sobre esse brinquedo, agradecerei o contato.

No presente artigo falarei um pouco dos produtos da Viocema.

Poucos são os apreciadores do gênero faroeste que sabem da existência da Viocema. Muitos acreditam que apenas Casablanca e Gulliver atuaram neste segmento. Outros (menos) sabem da atuação da Trol no segmento faroeste e acreditam que brinquedos como Gunsmoke e General Custer eram por ela produzidos. Eram, na verdade, produzidos pela Viocema.

Conheço apenas dois produtos lançados pela Viocema, o Gunsmoke e o conjunto General Custer, citados acima, conjuntos estes que serão comentados neste artigo.

Interessante ressaltar que, assim como no caso da Trol, as figuras lançadas pela Viocema eram as mesmas ( fôrmas ) lançadas por Casablanca/Gulliver, apenas com pintura de qualidade inferior.

Figuras da Viocema que nunca vi com outras marcas foram: o médico, e mulher e o xerife do conjunto Gunsmoke ( apresentados adiante ) e uma figura montada, com os braços erguidos, que representava, muito mal, o General Custer. Esta figura do General conheci com camisa vermelha e com camisa azul, ambas com calças brancas.


Primeiro, alguns comentários sobre a série de televisão - Gunsmoke - que deu origem ao brinquedo.

Gunsmoke foi a série de televisão, ao longo de toda a história da TV mundial, que ficou mais tempo sendo produzida - 20 anos, de 1955 a 1975. A 2a série de maior duração da história foi Bonanza, com 13 anos.

Foram produzidos 633 episódios, sendo em preto e branco nos primeiros 11 anos da série, e em cores nos restantes 9 anos.

Os personagens principais da série, retratados no brinquedo, eram:

Xerife Matt Dillon (James Arness)
Galen "Doc" Adams (Milburn Stone)
Kitty Russel (Amanda Blake)

O sucesso desta série era imenso, e acredito que muitos admiradores de brinquedos de faroeste possuem boas recordações de seus episódios.

O sucesso da série de televisão passou logo para o mundo dos quadrinhos, com o lançamento de séries baseadas em Gunsmoke, no Brasil (EBAL) e no exterior.


Tamanho sucesso não poderia ficar fora do mundo dos brinquedos, e a Viocema tratou de corrigir esta falta, lançando o seu conjunto Gunsmoke, que foi produzido ao longo dos anos 70. Abaixo, a imagem da caixa do brinquedo Gunsmoke:


O conjunto possuiu duas versões. Em ambas as versões a estrutura básica do brinquedo era a mesma, ou seja:

Sallon;
Escritório do xerife;
Estrebaria;
Diligência;
Figuras do xerife, do médico e da mulher;
Conjunto de figuras de cowboys diversas, todas com fôrma Gulliver/Casablanca.

A diligência da Viocema utilizava a mesma fôrma daquela lançada pela Casablanca nos anos 60, a qual era vendida individualmente, e também, acompanhava o conjunto Virgínia City. A diferença é que os cavalos da diligência Casablanca eram do modelo mais gordo, ao passo que os da Viocema eram magros. Ambas as fábricas colocavam a figura do cocheiro junto com a diligência, sendo que a Viocema utilizou a mesma fôrma da Casablanca para esta figura.

As principais diferenças entre as duas séries lançadas pela Viocema eram as seguintes:
Na primeira versão o Sallon possuía sacada em "L", ao redor da casa. Na segunda versão a sacada era de um lado só, na frente da casa;

Na primeira versão a diligência era de plástico azul. Na segunda versão, de plástico salmão.
Abaixo, a foto da delegacia e do saloon na 1a versão do brinquedo. Ao centro a diligência em plástico azul. "Pilotando" a diligência, a famosa figura do General Custer, mencionada acima, com camisa azul e calças brancas:

Esta foto é da coleção de Fernando Camargo

conjunto com a diligência na cor salmão
(os cavalos da foto não são originais)

Abaixo, uma vista geral da segunda versão do brinquedo. A diligência, em primeiro plano, de plástico marrom, é da Casablanca, mas os cavalos são originais da Viocema, com as suas tradicionais selas vermelhas:


Abaixo, as fotos das figuras que representavam o xerife (na sacada), o médico e Kitty Russel. As cores das figuras eram variadas, mas sempre a pintura era feita sobre plástico branco:


Outro conjunto da Viocema, lançado para faturar em cima do nome de alguém famoso, foi o General Custer.

A capa do conjunto era muito bonita, e prometia....


Uma bela cena de carga de cavalaria sobre um grupo de índios, observados pelo próprio General.

No entanto, ao abrir a caixa, o conjunto decepcionava um pouco. Era composto apenas de três carroças de madeira, uma delas com lona "camuflada" (?). As carroças são um pouco mais largas que as da Casablanca, com cavalos e rodas da diligência. Vez por outra é possível encontrar uma carroça destas num leilão da internet, mas são raras.

Eu não me recordo, mas colecionadores amigos informam que figuras da Viocema eram vendidas avulsas em sacos plásticos, sacos estes que eram fechados por um papelão com uma réplica da imagem do conjunto, apresentada acima. Abaixo, o conteúdo do conjunto:

Conjunto da coleção do Alan, de São Paulo

São estas as informações que possuo sobre a Viocema. Assim como já comentei no artigo sobre o Fort Rin Tin Tin, sempre restará alguma curiosidade sobre as negociações empresariais entre os fabricantes de brinquedos. Sendo a Trol e a Viocema concorrentes da Gulliver na linha faroeste, que interesse poderia ter a Gulliver em ceder suas fôrmas para os concorrentes produzirem figuras que concorreriam diretamente com seus produtos?

Da mesma forma, resta alguma curiosidade em relação a Trol X Viocema, uma vez que o estilo de pintura das figuras por elas lançadas era praticamente o mesmo, assim como o tipo de embalagem em que vinham os conjuntos das duas fábricas era muito semelhante. Teriam Trol e Viocema possuído algum vínculo societário entre si?

Espero retornar em breve com mais informações sobre o saudoso mundo dos brinquedos de faroeste.